Cobras tiram sossego de moradores do Indaiá

A jararaca é uma espécie peçonhenta

Bertioga detém rica natureza, admirada por muitos. Entretanto, a integração entre natureza e expansão urbana requer planejamento, visando o equilíbrio. As 88 famílias moradoras (cerca de 200 pessoas) no Condomínio Nedda II, no Indaiá, estão vivenciando, na prática, essa falta de equilíbrio entre homem e natureza. Esta semana, uma cobra jararaca, de cerca de 1,5m de comprimento, foi capturada e morta por moradores do local, que é vizinho a uma grande área com vegetação densa. A prefeitura foi consultada pela reportagem a respeito do proprietário e da possibilidade de a área ser murada, mas não houve retorno. “As crianças da vizinhança costumam entrar descalças nesse matagal. É um perigo”, advertiu um morador do condomínio.
Os residentes sequer sabiam a espécie da cobra – identificada por biólogos por meio de fotos, a pedido do JCN (Jornal Costa Norte) –, que é peçonhenta, mas já suspeitavam do perigo que corriam, tendo em vista que já teria virado rotina outros tipos de cobras serem capturadas dentro e no quintal das casas. Ratos são outras espécies que estariam invadindo os imóveis do condomínio. Vale ressaltar que roedores são alguns dos alimentos prediletos das cobras.

Muitas cobras
Os moradores contam que por volta das 18h desta terça-feira (22), uma das crianças do bairro gritou que havia visto uma cobra em uma viela que serve, inclusive, de passagem para os estudantes das escolas Archimedes Bava e José Ermírio de Morais. A 1ª reação dos adultos foi de proteger a vida humana, em virtude da ameaça que o animal representava. Assim, a cobra foi capturada e morta a base de pauladas e pedradas.
Um dos vizinhos mostrou outro local, próximo a um córrego, onde ele também se deparou com uma cobra de coloração verde e amarela. “Eu estava capinando o mato que está invadindo a rua e vi a cobra enrolada. Mas ela escapou e, de vez em quando, ainda vejo andando por ali”, contou, mostrando uma passagem muito utilizada pelos moradores do bairro.
Outro morador relatou que sua esposa por pouco não foi picada. “Ela lavava roupas e sentiu um calafrio. Quando se afastou, viu a cobra embaixo do tanque pronta para dar um bote”, afirmou outro residente lembrando que em menos de um mês, em outro imóvel já foram mortas 05 cobras. “A dona da casa está até sem dormir direito, por medo das cobras”, relatou.

Peçonhenta
A Bothrops jararaca, conhecida somente por jararaca, é uma cobra peçonhenta. De acordo com a bióloga de Bertioga, formada na USP, Simone Ribeiro Heitor, a cobra encontrada no Indaiá parece ser adulta e a espécie é agressiva. “Preparam o bote ao ver se aproximar qualquer ser”, detalha. Ela explica que a espécie se alimenta de pequenos animais, como ratos e sapos e vivem em ambientes preferencialmente úmidos. Dormem durante o dia, embaixo de folhagens secas e úmidas e gostam de tomar sol, geralmente o sol pós-chuva.

Entidades do mal
Para o biólogo e diretor do Museu Biológico do Instituto Butantan, na capital, Giuseppe Puorto, as cobras não devem ser encaradas como “entidades do mal”. “São animais silvestres, apesar do apelo popular negativo, e vivem em busca de abrigo e comida”.
Ainda assim, ele considera necessário cuidado. Em caso de ataque, o importante é o atendimento correto. “O trunfo é o menor tempo, uma vez que o melhor atendimento ocorre nas 6 primeiras horas”, explicou Puorto.

Números
Utilizando números, o biólogo diz que não há necessidade de alarme. No Brasil ocorrem 28 mil ataques de cobras por ano. Dessas vítimas, somente 0,5% morrem. “Dizer que cobras são perigosas é muito mais mito do que realidade”, reitera.
Das 371 espécies de cobras no Brasil, somente 15% são peçonhentas. Em Bertioga, segundo o biólogo, somente dois grupos são encontrados: a jararaca e a coral. Por isso, ele afirma que as demais cobras avistadas e capturadas no Indaiá, como relataram os moradores, não são peçonhentas.

Ratos
Os moradores do bairro também relataram a grande incidência de ratos no local e, segundo Simone, esses animais é que podem estar atraindo as cobras. Ela reforça que quintais, plantações e terrenos que acumulam lixo e vegetais podres atraem os roedores. “E ratos atraem cobras”, reforça.
Desmatamentos e queimadas também podem provocar mudanças nos hábitos desses animais que acabam buscando refúgio dentro das casas. “Na verdade, é o homem que está invadindo o habitat das cobras”, considerou a bióloga.
Puorto concorda. “Não me espanto quando ouço relato de que uma cobra entrou em uma casa. Os invasores somos nós”.
O CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), ligado à Secretaria da Saúde de Bertioga, informou que duas desratizações foram feitas no local, entre dezembro de 2010 e janeiro deste ano, e não há previsão de novo agendamento.

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