População clama por médicos

Moradores de Bertioga reclamam de falta de especialistas e negligência no atendimento na UPA e UBSs

Prestes a completar 70 anos, com enfisema pulmonar e suspeita de câncer, Lourival Ramos de Magalhães não consegue conter as lágrimas ao pedir ajuda. Por necessitar de suporte de oxigênio, ele sente dificuldades na locomoção a outra cidade, para consultas e, por isso, implora por um médico pneumologista na cidade.

Ele conta que a sua situação demanda acompanhamento médico mensalmente e, conforme atestado médico, necessita de “broncodilatador e oxigênio constante para uso domiciliar, sob risco de insuficiência respiratória”. No entanto, a falta de especialista na cidade, já há três anos, faz com que ele tenha que se deslocar até Santos, considerado penoso para o aposentado devido a falta de oxigênio.

Além disso, Lourival conta que nem todo mês é possível a consulta no outro município devido à agenda. Ele lamenta: “Aqui tinha pneumologista. O doutor Valdir Cunha Filho, que me tratava, mas ele saiu há três anos. Desde então, Bertioga não tem pneumologista – e tem centenas de pessoas doentes do pulmão aqui […]. Já falei na Secretaria da Saúde, na ouvidoria, e ninguém me deu solução; dizem que não tem verba para pagar o médico. […] O câncer não espera, e o enfisema pulmonar também não”.

O aposentado, que vive com um salário mínimo, conta que seus problemas causaram também uma doença mental, cujo remédio para o tratamento, que custa em média R$ 200, há três meses não é distribuído gratuitamente.

Outras reclamações
Em postagem na página do Sistema Costa Norte, no Facebook, os moradores apresentaram uma série de reclamações com relação à saúde, inclusive falta de especialistas e negligência. Sobre a falta de especialistas, há relatos de mulheres que não conseguem consulta com ginecologista desde janeiro, como Mônica Coentro. Disse ela: “Marquei ginecologista para janeiro e foi desmarcado; marquei de novo para fevereiro e também foi desmarcado, marquei para março e adivinha? Desmarcado de novo! Como podemos cuidar da saúde da mulher desse jeito?”.

A moradora Maria das Graças Souza reclama também da falta desse profissional na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Vicente de Carvalho. Ela afirmou: “Foi colocada uma no lugar do doutor Félix, que mal começou e já vai entrar de férias, e o outro médico que tem, não atende os pacientes de outro médico. É o fim do mundo mesmo”. Já Patrícia Santos contou que precisou ajudar seu vizinho a fazer o parto da mulher porque, após a paciente procurar atendimento, com dores, o ginecologista a mandou para casa.

Outra necessidade é apontada pelos pais de crianças e adolescentes com necessidades especiais. Eles reclamaram que precisam levar seus filhos até outros municípios para conseguir atendimento com neuropediatra e ortopedista infantil. Mãe de duas crianças especiais, Chris Santos comenta: “Não sabemos quando será o último dia de atendimento especializado. Faltam terapias essenciais para ‘manutenção’ de pacientes cadeirantes como hidroterapia e equoterapia. Para um endócrino, tem que aguardar no mínimo seis meses por uma vaga em Santos”. Ela critica também a falta de medicamentos básicos para pacientes com doenças crônicas e “contratos com clínicas para fisioterapia com prazo curto e que, provavelmente, deixará muitos pacientes sem atendimento”.

Morador de Bertioga há nove meses, Paulo Hintze ficou perplexo com uma recusa de atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) após cortar o pé. “Andando na praia, furei o pé com alguma coisa que ficou lá dentro. Fui ao hospital, passar por cirurgião e, depois de três horas de espera, o mesmo nem olhou em minha cara. Disse que deveria passar pelo posto e lá ser indicado para alguma solução. Indignado, cheguei em casa e, sem experiência nenhuma, comprei xilocaína, cortei e tirei o pedacinho de vidro. Agora pergunto: o ‘maledeto’ não podia ter feito isso lá em um ambiente mais apropriado para isso?”.

Prefeitura não se manifestou

Na terça-feira, 16, a reportagem solicitou respostas da prefeitura quanto ao quadro médico atual. Entre os questionamentos estavam a quantidade de médicos; locais de atendimento e especialidade de cada um; se o número de especialistas está de acordo com o necessário para cada unidade de saúde; e qual seria a previsão para a regularização caso não estivesse. Até o fechamento desta edição, na tarde de quinta-feira, 18, a prefeitura não se manifestou.

Foto: Arquivo pessoal

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