Acadêmicos

O uso de animais vivos em estudos acadêmicos

Este é um artigo independente. As informações contidas são de integral responsabilidade de seu autor.

*Maíra Eugênia Caralli

Nenhum indivíduo saudável e normal pode considerar ético usar um animal vivo para experimentações científicas que lhe causem dor, sofrimento e/ou anomalias permanentes (sequelas). Não deve haver um só veterinário, médico, biólogo ou qualquer outro profissional de áreas congêneres que não se sinta angustiado por dispor da vida de um animal em nome da ciência. Entretanto, do mesmo modo que a natureza é cruel, apesar de sua beleza imensa, os estudos científicos ainda não podem prescindir das cobaias vivas. Pelo menos, por enquanto. Infelizmente.

No último dia 26 de julho, o veto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao Projeto de Lei 706/2012, do deputado estadual Feliciano Filho (PSC), foi publicado no Diário Oficial do estado de São Paulo (DOSP) e duramente criticado, mas as críticas carecem de respaldo lógico. Independente de ser meritório, o PL 706 poderia engessar o ensino de práticas cirúrgicas e procedimentos variados da medicina veterinária (da inseminação artificial aos tratamentos de doenças severas, e muitos são invasivos e deletérios). Isto sem contar que a maior parte das intervenções médicas também para  humanos disponíveis hoje em dia foram testadas em outros mamíferos como porcos, vacas, cavalos e cães: de pomadas para tratamentos dermatológicos, passando pelas vacinas e antibióticos, até cirurgias complexas e salvadoras de vidas!

Se Christiaan Barnard tivesse sido impedido de usar cães para seus primevos experimentos de transplantes de coração, talvez ainda estivéssemos engatinhando neste tipo de prática cirúrgica. Será que existe alguém que discorde da importância do legado de Barnard para a medicina? Para os mais jovens e para aqueles que não se lembram da história: Christiaan Barnard foi o primeiro médico a realizar uma cirurgia de transplante de coração em 1967. E uma observação importante: o homem que se submeteu a esta primeira cirurgia também foi uma cobaia, a diferença é que ele tinha plena consciência dos riscos envolvidos e aceitou todos eles porque sua morte era inevitável e agônica. Ele morreu menos de três semanas depois da cirurgia em decorrência da rejeição pelo órgão transplantado; mas até mesmo a sua morte faz parte da herança do aprendizado, pois também os medicamentos que impedem a rejeição de órgãos transplantados só foram desenvolvidos a partir de experimentos com animais vivos. Incluindo humanos.

Poder-se-ia argumentar que a tecnologia atual, dos simuladores às cópias 3D, já permite que se renuncie aos organismos vivos para quaisquer situações, mas (ainda) não é assim. Os simuladores podem até equacionar as idiossincrasias (particularidades e reações de um organismo aos agentes externos) e propor uma ação específica, mas a tecnologia é imune, pelo menos por ora, à permutação entre todas as variáveis. E o mesmo vale para as réplicas 3D.

Até que tenhamos dispositivos e ferramentas capazes de suprir todas as necessidades para as práticas científicas, as leis de proteção devem ser rígidas para garantir que todos os recursos alternativos sejam esgotados e que as cobaias sejam poupadas de dor e sofrimento. Não precisamos de demagogia nem de propostas midiáticas, precisamos de soluções.

*Maíra Eugênia Caralli é presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais

Foto: Reprodução Internet

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