Santos, década de 1950. Um senhor em trajes elegantes sai do opulento Parque Balneário Hotel, na Avenida Ana Costa, e caminha. O homem anda no ritmo adequado a alguém de 80 anos. Parece não ter pressa e chega devagar à rua Fernão Dias, prosseguindo a caminhada.

Ele atravessa toda a extensão da rua lentamente. Parece mesmo não ter pressa. Chega à Rua Mario Carpenter e continua a caminhada até chegar à Avenida onde acaba a rua. O senhor procura, então, a placa de identificação da rua, onde vê com os próprios olhos que lá ainda está escrito “Avenida Dr. Washington Luiz”.

Deposto da presidência da República em 1930, o senhor respira aliviado por saber que não foi deposto do nome da rua que inaugurou em 1923. O senhor era o próprio Washington Luís. 

A deliciosa história é real e foi contada por “Seu Josué” acervo histórico ambulante, que durante décadas foi pintor do Antigo Parque Balneário Hotel e testemunha de diversas histórias na cidade de Santos.

Ironicamente, a rua que dá nome ao presidente da república, deposto em 1930 quando Getúlio Vargas assumiu o poder, é conhecida por muitos por outro nome, Canal 3. 

Até no nome da rua parece que Washington Luiz carregava o Karma da deposição. De toda forma, o nome oficial da rua é em sua homenagem. Apesar do nome da rua ser ‘’Luiz”, grafado com ‘z’ ao final e sem acento agudo e o nome de batismo do ex-presidente ser grafado diferente (‘’Luís” acentuado e com ‘s’ ao final).

Washington Luís recebeu a homenagem quando era Presidente de São Paulo, o equivalente ao cargo de governador atual. Ele mesmo foi a Santos inaugurar o Canal 3 e a rua que levou seu nome, em 1923. A homenagem se deu em reconhecimento ao apoio do político na pavimentação e recuperação do Caminho do Mar, à época, única ligação viária entre Santos e São Paulo.

Advogado de formação, antes de ser presidente de São Paulo,  Washington Luís Pereira de Sousa foi prefeito de Batatais, secretário de Justiça, deputado estadual e prefeito da cidade de São Paulo. Depois da presidência do estado, foi senador da República, também por São Paulo, e, por fim, ocupou o mais alto cargo da República Velha, o de presidente.

Foi o 13º presidente brasileiro, ocupando o cargo por quase seis anos, de 1926 até 1930. Foi deposto a vinte e um dias do final de seu mandato, durante a revolução de 1930 que levou Vargas ao poder. Foi o último presidente da República Velha.   

A gestão presidencial de Washington Luís foi marcada por  medidas administrativas que garantiam o povoamento de grandes extensões de terra inexploradas do estado e por grandes obras rodoviárias. Recebeu de opositores o apelido de “Estradeiro”.

Chegou a afirmar que “Governar é abrir estradas”, frase reproduzida até hoje por políticos paulistas. Além da primeira estrada São Paulo x Santos, pela qual foi homenageado em Santos, e de outras estradas, também apoiou a construção da primeira estrada São Paulo  x Rio de Janeiro, reduzindo o período de deslocamento entre as cidades de 33 dias para 14 horas. Facilitou a imigração japonesa para o Brasil no pós 2ª Guerra.  

Na crise sucessória de 1930, foi deposto pelos ministros militares de seu governo em outubro daquele ano, na revolução que colocaria Getúlio Vargas no poder. Depois disso, viveu em exílio nos Estados Unidos e na Europa durante muitos anos, retornando ao Brasil em 1947.

 Washington havia apoiado Júlio Prestes, opositor de Vargas, este unido à João Pessoa, da Paraíba, na formação da Aliança Liberal, que buscava acabar com a política do café-com-leite, em que apenas políticos de São Paulo e Minas Gerais chegavam à presidência. Nasceu em 26 de outubro de 1869, em Macaé, no Rio de Janeiro.

De origem pobre, os irmãos tiveram de largar a escola para que ele pudesse estudar. Formou-se em Direito no Largo do São Francisco, em São Paulo, iniciou sua carreira política no Partido Republicano, também em São Paulo.