Cansado e triste, Marcelo Silva andava pela orla de uma praia.

O calçamento bem estilizado que compunha o chão do calçamento era agrupado de uma forma organizada e bem encaixada. A arborização da via que se seguia paralela à praia era extremamente condizente com a paisagem natural, em frente a prédios residenciais e profissionais. Enormes edifícios que não projetavam sombras de maneira concisa, já que a iluminação artificial que circundava todo o ambiente esterilizava o lugar de qualquer naturalidade. Era noite e estava abafado. O céu completamente escuro se misturava com a água do mar, que não podia ser distinguida no horizonte, mas era completamente notada quando as ondas quebravam na praia.

O lugar era realmente bem iluminado, mas completamente sombrio. Enquanto Marcelo andava, percebia ao seu redor todo um tipo de movimentação. Pessoas juntas em um quiosque bebiam e comemoravam o aniversário de alguém. Outros transeuntes corriam pelo calçamento, fazendo, assim, sua jornada contra o sedentarismo naquela noite. Também havia mendigos que pediam esmolas a qualquer um que passasse em sua frente.

O contador andava vagarosamente pela orla, apenas ouvindo o som das ondas. As horas iam passando, e logo o movimento dos carros e ônibus diminuiu. As pessoas que caminhavam por ali também abandonavam o local com o avançar da madrugada. O vento quente soprou no rosto triste do rapaz, empurrando suas lágrimas.

Tomando coragem, andou pela areia e tirou o sapato dos pés. Estava com sua roupa social, a mesma que usava costumeiramente para ir trabalhar. Uma gravata azul com listras amarelas. Uma camisa branca com os dois primeiros botões abertos. Ele dobrou a bainha da calça, pois queria colocar o pé na água. Pegou seus sapatos na mão e os jogou na lata de lixo. Não se importava mais. Estava sozinho na areia da praia e continuou sozinho quando colocou os pés na água morna. Ele respirou o ar e sentiu o cheiro do mar. Ele gostava do mar. Especialmente, à noite. Tudo parecia um gigantesco abismo. Queria se jogar ali.

Com seus trinta e oito anos, não se sentia realizado. O emprego era terrível. Sua esposa o deixou havia duas semanas. Seus irmãos escolheram ignorar o dia de seu aniversário e foram viajar em família, sem ele. Parecia não haver lugar agradável naquele momento de sua vida. Estava cansado de não se sentir parte de alguma coisa e estava triste, pois os últimos elos que o ligavam com a humanidade haviam sido cortados. Ele mal se sentia humano. Não se sentia notado por ninguém. Estava sozinho.

Como este era o dia de seu aniversário, fez um breve pedido ao vento. Fez uma prece silenciosa para qualquer divindade que estivesse escutando. Não pediu fortuna. Não pediu prazeres. Não pediu um emprego melhor. Marcelo queria se sentir conectado com algo. Queria fazer parte de alguma coisa. Queria que as pessoas tivessem uma impressão impactante sobre ele, não importando qual fosse. Marcelo queria sair do fundo das trevas, queria ser lançado a luz.

Em meio à sua lamentação silenciosa, Marcelo viu algo se arrastar para fora da água. Algo estranho e desconhecido. Não parecia um animal, mas também não parecia uma pessoa. O formato era como de um cachorro sem cabeça. No lugar onde deveria estar o pescoço, encontrava-se uma espiral preta e branca que se afunilava para dentro do corpo. Ela girava em sentido anti-horário, e, em seu centro, estava uma boca com pequenos dentes. A cor do ser era verde musgo. A criatura andava cambaleante sobre duas pernas, enquanto se apoiava por seu único braço, que saía do meio de seu peito. Andava cambaleando. Não parecia feita para terra, mas também não para o mar. A simples visão daquela coisa congelou Marcelo, que queria fugir, mas não podia. O ser ia em sua direção mancando vagarosamente. O homem tentou encontrar olhos na criatura, mas não achou.

O ser chegou bem perto de Marcelo. Desconfortavelmente perto. O cheiro era como de peixe azedo e o barulho de sua respiração como zumbido de moscas. Muitas moscas varejeiras. Quase como se o rapaz pudesse senti-las andando em sua pele. Sentiu nojo, mas não conseguia se mexer. O monstro agarrou Marcelo pelo pescoço e o aproximou da espiral em direção ao rosto do homem, que não conseguiu desviar. A espiral girava. Parecia abrir sua mente para algo totalmente desconhecido. Foi então que a boca que ali estava se abriu, revelando um olho de pupilas amarelas. Era certamente a cor de um cadáver apodrecendo.

O infeliz rapaz tentou fechar os olhos diante daquela visão perturbadora, mas não conseguiu. Houve uma conexão entre sua mente e aquele olho. Neste momento, algo totalmente novo aconteceu. Marcelo ouviu uma voz que berrou dentro de sua mente. Seu som era como de um motor engasgando.

— Eu ouvi seu clamor, Marcelo. Vou conceder a você um dom. Você poderá trazer à tona tudo o que está escondido no interior da mente das pessoas. As trevas do subconsciente humano lhe serão morada, e poderão refletir em você o que há no âmago do ser de cada pessoa.

— Eu... Quem... — balbuciou, tentando expressar qualquer coisa. Mas se havia algum pensamento em sua mente, ele se perdeu completamente no estranhamento que circundava toda aquela situação. Estava completamente fixo naquele olhar. Era como ver seus maiores desejos e medos. Era como se estivesse no limiar do prazer e do total terror. Marcelo não conseguiu dizer não.

Quando o ser terminou de falar, os olhos do homem brilharam em tom amarelado. Ele caiu de joelhos e começou a espumar pela boca, enquanto se contorcia. Sem se importar com os espasmos e convulsões do rapaz, a monstruosidade voltou cambaleando para o mar. Andou até sumir na imensidão negra daquelas águas. Marcelo caiu no chão e desmaiou.

Enquanto estava desmaiado, Marcelo teve sonhos intranquilos. Ele se viu lançado em um mar vermelho, cercado por doze monstruosidades. Elas eram totalmente diferentes entre si, mas eram semelhantemente perturbadoras. Enquanto flutuava, perdido em um mar de sangue, ele se viu elevado em direção ao céu roxo que brilhava sobre sua cabeça. Em uma só voz, todos os doze monstros que o circundavam disseram:

— Saúdem o agraciado. Que seu reinado não tenha fim. Que ele abram os portões para a chegada dos outros Inomináveis.

Marcelo, aterrorizado e encantado, flutuava sem controle por cima do mar. Foi então que viu emergir das águas sangrentas uma criatura alada. Seu corpo era coberto por escamas e tinha um contorno feminino. O rosto da criatura era belíssimo, mas, em lugar dos olhos, havia bocas e, em lugar da boca, nada havia. Seus cabelos castanhos escorriam em seis mexas, onde cada uma trazia uma adaga. Nas mãos do ser, estava uma coroa de ouro, cravejada por ônix. A coroa ostentava nove pontas, sendo a central mais elevada. Marcelo foi coroado pela entidade. Ao concluir o macabro ritual, a criatura falou com as duas bocas.

— Marcelo, hoje eu lhe coroo com o terror dos homens. Hoje, você é transfigurado e será outro. — Ao colocar a coroa sobre a cabeça do rapaz, a criatura se afastou. Novamente, todas as vozes foram ouvidas, mas, dessa vez, pareciam vir dos quatro cantos das águas.

— Nada mais será oculto aos seus olhos. Vida longa ao primeiro Inominável. E o seu nome será Ektanteron.

Após todas as monstruosidades se silenciarem, Marcelo caiu. Ele despencou centenas de metros em direção às águas sangrentas. Em meio a gritos de desespero, o rapaz bateu com força no mar e mergulhou profundamente. Quando recobrou os sentidos, nadou de volta para a superfície. Ao emergir, viu que estava novamente na praia de Santos, a algumas dezenas de metros da faixa de areia. Ainda confuso e atordoado, nadou em direção à orla. Cansado e ofegante, ele se deitou na areia da praia. Nada mais seria como antes.