Na noite desta terça-feira, 20, mais de mil manifestantes foram dispersos a tiros pela polícia da cidade de Lagos, maior metrópole da Nigéria, na África Ocidental, e epicentro dos protestos que, na altura, já duravam dez dias. O governo instituiu um toque de recolher, na tentativa de estancar a onda de protestos que seguem crescendo no país.

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Testemunhas relataram à agência France Presse que muitos tiros foram disparados e que elas precisaram correr. Circulam nas redes sociais vídeos com registros de feridos. A estimativa é de que, desde o início dos protestos até esta terça-feira, dezoito manifestantes já teriam morrido vitimas da repressão policial aos protestos - sete deles nesta terça-feira. 

OS PROTESTOS

Além de reivindicar melhoras na economia, os manifestantes nigerianos têm saído às ruas para protestar contra a polícia do país, a SARS (sigla para Special Anti-Robbery Squad ou Esquadrão Especial Antirroubo, em tradução livre). Frequentemente, a hashtag #EndSARS tem eclodido como um dos assuntos mais comentados das redes sociais. Em Lagos, a capital, com 20 milhões de habitantes, para se deslocar de um bairro para o outro, as pessoas precisam pagar um pedágio instituído pelo governo e controlado pela polícia. Atualmente, na cidade, há várias ruas controladas pelos manifestantes que colocaram fogo em vários pedágios e liberaram a passagem. Há relatos de que nesta terça-feira, 20 (antes da polícia matar sete pessoas e ferir outras em Lagos) os manifestantes, hasteando bandeiras nigerianas, gritavam: "Estamos preocupados? Não, morreremos aqui!"

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Tradução: A SARS [polícia] atirou num jovem e o matou em Ughelli, estado de Delta, nesse momento. Foi em frente ao hotel Wetland. Eles deixaram o rapaz morto na calçada e foram embora com o Jeep dele.  

Apesar de o foco inicial dos atuais protestos serem uma incógnita, o site especializado em tecnologia, Tech Cabal, rastreou o atual reclame nas redes e descobriu que ele começara em uma postagem de 03 de outubro que denunciava policiais do SARS. De acordo com a mensagem, os policiais haviam atirado em um rapaz e o deixado para morrer sem prestar socorro diante de um hotel em Ughelli - cidade no estado de Delta, no sul do país - e ainda fugiram com o veículo do jovem falecido. A mensagem foi compartilhada 10 mil vezes.

A SARS foi criada me 1984 supostamente para contar os constantes roubos e furtos na Nigéria. A instituição é acusada de, desde sua origem, ter o uso de violência excessiva como sua principal estratégia. Nos anos 90, entidades que atuam na proteção dos Direitos Humanos já denunciavam as práticas ilegais da unidade. Tais práticas se acentuaram nos últimos 30 anos, até fazerem com que a indignação da população atingisse seu grau máximo na última semana, com o assassinato do rapaz pela polícia.

Além de confiscos ilegais de propriedades, a polícia nigeriana também é acusada de execuções, assédio, corrupção, extorsão, roubo e tortura. De janeiro de 2017 a maio de 2020, a Anistia Internacional registrou 82 casos de tortura e execução por parte da SARS. Em relatório, a organização afirma que o maior contingente de vítimas da polícia nigeriana são homens jovens (18 a 35 anos) pobres e de grupos vulneráveis que “são torturados com fins de extrair confissões ou como punição pelos crimes a eles atribuídos”.

O GOVERNO

O Governo, que chama os manifestantes de “arruaceiros” e agentes do caos, instituiu um toque de recolher em Lagos. "As manifestações pacíficas se tornaram um monstro que ameaça o bem-estar da nossa sociedade", declarou o governador Babajide Sanwo Olu antes de anunciar o toque de recolher.

Com informações de France Presse | Ponte Jornalismo: Jessica Santos